Dia Nacional e Europeu da Luta Contra a Obesidade

No âmbito do Dia Nacional e Europeu de Luta Contra a Obesidade, celebrado a 18 de maio, quisemos partilhar um testemunho real de alguém que conhece de perto esta doença, que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. É o caso de Ana Dias que, tendo sido já obesa, partilha o seu testemunho de força e motivação para conseguir uma vida mais saudável.

Neste Dia Nacional e Europeu da Luta Contra a Obesidade, qual é a sua visão face à situação em Portugal? É preocupante

Infelizmente, os números de obesidade em Portugal têm vindo a aumentar, já que cerca de 60% das pessoas são obesas, 22% têm obesidade e 34% encontram-se em pré-obesidade, logo sim estes números são preocupantes. Diria mesmo alarmantes, porque faz com que Portugal seja um dos países com maior taxa de obesidade na União Europeia.

Considera que as pessoas estão bem informadas face a esta doença que afeta tantas pessoas em todo o mundo?

Penso que ainda haja alguma desinformação sobre esta doença. Pode parecer um contrassenso numa era digital, mas o facto de existir mais acesso à informação não quer dizer que a mesma seja fiável, logo pode-se cair numa maior desinformação. É mais fácil aceder à informação vinculada nas redes sociais, que está ali imediatamente e não nos coloca a raciocinar e a interpretar, em vez de investigar, ler ou debater com os médicos assistentes.

Em Portugal, vamos mais pelo que “a amiga diz”, ouviu ou até leu, do que por fontes credíveis, dificultando todo o processo.

Para quem lida com este problema, que medidas são importantes? Por onde se deve começar?

As medidas importantes são, essencialmente, entender se a pessoa se sente bem consigo própria, com o seu corpo, física e mentalmente, e tentar com o seu médico de família fazer análises e exames, para perceber se é algo endócrino ou se realmente se está acima do peso indicado para a sua idade e altura.

Com o auxílio do seu médico de família, do psicólogo e nutricionista, deve então ser feito um plano individual, de novos hábitos alimentares e físicos, sempre elaborado com a envolvência do doente.

Se houver alguma patologia ou se já se estiver num índice de obesidade mórbida e as medidas atrás não resultarem (ao fim de um a dois anos), poderá então dar-se a entrada para um processo de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, caso a pessoa cumpra determinados parâmetros para a realização da mesma, através do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Podemos abordar o seu caso em específico? Fale-nos um pouco da sua história.

Cheguei aos 27 anos com 120 Kgs, com muito desgaste físico, especialmente a nível de coluna e pés, e sentindo-me cada vez pior comigo mesma, especialmente quando ia às compras e não conseguia comprar nada a meu gosto, que me ficasse bem. Ouvi falar das Cirurgias Bariátricas e Metabólicas e decidi ir a uma consulta médica, para saber como estaria a nível de saúde, sem ainda colocar a hipótese de fazer alguma uma destas cirurgias.

Após a consulta e alguns exames, decidi iniciar o processo, visto que era hipertensa, com o coração e rins quase a colapsar e pré-diabética, tendo casos de familiares próximos que foram Diabéticos Insulinodependentes, o que me assustou. Iniciei uma reeducação alimentar pré-cirurgia e, assim que obtive as condições necessárias para tal, realizei um Bypass Gástrico com Anel, a 1 de Outubro de 2008.

Nesses cinco meses fui sempre bem informada sobre todo o processo, antes e após a cirurgia, de todas as fases e tanto dos prós como contras. Também por essa altura fiz parte do grupo XXLight, um grupo informal de obesos e ex obesos, em que obtive muitas informações e onde via com os meus próprios olhos as várias evoluções. Nesse momento, conheço também a ADEXO – Associação de Doentes Obesos e Ex Obesos de Portugal – e início uma colaboração como voluntária.

O processo não foi fácil. Mesmo estando informada, houve momentos de dor e irritação, devido a toda a transformação a que somos submetidos, em todos os aspetos. Mas quando vi os números a descer foi uma motivação para mim. Nos três primeiros meses emagreci 30 Kg e fui emagrecendo mais com o tempo, apaziguando a relação com o meu corpo.

Neste momento, após 10 anos de Cirurgia Bariátrica e de uma cirurgia reconstrutiva (a abdominoplastia), peso 60 Kg. Tenho uma vida mais sociável, mais saudável e tenho mais consciência sobre o que quero para a minha vida e o que não quero. Naturalmente, tive que abdicar de algumas coisas a nível alimentar, mas foi um processo relativamente fácil, que não sinto qualquer falta, até porque se comer esse tipo de alimentação sei que posso passar muito mal e ter reações corporais graves. Conheci o meu companheiro após as cirurgias e em casa só há um tipo de alimentação: a mais saudável possível, adotando ervas aromáticas, saladas ricas e coloridas, inventando e adotando receitas.

Fui habituada a levar o meu almoço para o trabalho e esse é um hábito que tem que se ter após estas cirurgias. Devemos levar sempre a nossa comida, à nossa medida e feita por nós, pois não podemos e não devemos comer determinadas coisas. Na lancheira levo o meu segundo pequeno-almoço, o almoço e os snacks saudáveis da tarde. Desta forma, não há a tentação de ir ao café, às máquinas de comida e sabemos o que comemos, a nossa quantidade, para além de beber água durante o dia.

Quanto ao exercício físico, não vou ao ginásio, mas faço imensas caminhadas na cidade e na natureza. Mas sei que se não tiver cuidado posso vir a ser obesa novamente. Tenho de ter muitos cuidados alimentares e físicos, bem como realizar exames de rotina.

Muitas das vezes, a obesidade não está apenas relacionada com hábitos alimentares, mas antes com a nossa saúde mental. Problemas de depressão ou ansiedade podem levar a diferentes distúrbios alimentares. Concorda?

Sim concordo. Como já referi, tudo isto é uma série de acontecimentos que se vão repetindo sucessivamente. Pode acrescentar-se uma patologia mais complexa a nível de saúde mental, desencadeando diferentes distúrbios alimentares, como a anorexia, a bulimia ou a obesidade.

Que mensagem deixaria a quem está na caminhada por uma vida mais saudável?

A mudança tem que partir realmente de nós, não basta querer mudar e ser mais saudável, há que reconhecer e pedir ajuda médica o quanto antes. Devem fazer também um trabalho mental, com a ajuda de um psicólogo ou coaching, e introduzir novos hábitos alimentares e físicos. Devem definir metas e tempos, mas não viverem obcecados com isso, porque cada pessoa é diferente, com tempos diferentes, metabolismos diferentes, e o que resulta para mim não resulta para outra pessoa.

E o meu lema de vida é: nunca desistir. Por isso coloquem-se sempre em primeiro lugar. Quando se quer algo, luta-se, mesmo sabendo de que existirão sempre tentações.

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